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Artigo: O que ainda falta ao jogo de Jon Jones, campeão do UFC

Jon Jones chuta Glover Teixeira no UFC 172 Foto por Patrick Smith

Jon Jones agride Glover Teixeira no UFC 172, no último sábado em Baltimore. Foto por Patrick Smith/Zuffa LLC/UFC

Não consigo gostar de Jon Jones. Eu admito!

Posso estar diante do maior lutador da história do MMA, em um futuro não muito distante, e ainda assim não consigo simpatizar com o atual campeão do peso meio-pesado do UFC. Juro para os amigos leitores de GRACIEMAG que não estou sendo desarrazoadamente patriótico e depreciando o americano por ter derrotado Shogun, Machida e, mais recentemente, Glover Teixeira.

Nem mesmo por achar que Jones pode vir a tomar o posto de Anderson Silva como o maior lutador de todos os tempos. Não ignoro sua notável capacidade técnica. Não menosprezo suas impressionantes vitórias e recordes. Admiro, sim, suas muitas qualidades. A verdade é que não consigo gostar dele justamente por sua aparente perfeição.

Todos os fatores parecem convergir para tornar Jon Jones imbatível. Tem uma genética ideal para as artes marciais: alto, veloz, a maior envergadura do UFC, reflexos impecáveis, elevada capacidade de recuperação de lesões e com facilidade para perder peso que resulta em baixíssimo percentual de gordura às vésperas das lutas (daí o apelido “Bones”, algo como “magrelo” ou “ossudo” em tradução livre). Uma verdadeira aberração, no melhor sentido possível.

Todavia, se engana quem atribui todo o mérito de Jones à hereditariedade ou ao Papai do Céu. Trabalho duro e aprimoramento em todos os aspectos do MMA o tornaram um atleta completo. Wrestler de alto nível, Jones tem um dos maiores percentuais do esporte em eficiência nas quedas e em defesa contra derrubadas. Na trocação, seus jabs e cotoveladas são mortais. Sua esquiva é precisa. No chão, se garante no Jiu-Jitsu e já é o maior finalizador da história do UFC na categoria meio-pesado – cinco finalizações.

Focado, Jon Jones também é um grande estrategista e não corre riscos desnecessários. Segue à risca a cartilha do seu técnico Greg Jackson e faz sempre o suficiente para ganhar. Tudo muito perfeito. Perfeito até demais.

O que nos motiva no esporte é torcer para que nossos ídolos ou equipes superem as adversidades e nos maravilhem. A chance real de que venham a perder ou de que façam algo esplêndido são os fatores que emocionam. O divertimento está justamente em não saber o que vai acontecer. Nenhum videoteipe tem a mesma graça de um jogo ao vivo, principalmente por já conhecermos o resultado.

Quando os carismáticos campeões Cain Velasquez, José Aldo ou Anthony Pettis entram no octógono, sabemos que têm pontos fortes e vulnerabilidades. Favoritos sim, inalcançáveis não. Além disso, gostam de dar aos fãs o que eles gostam e tendem a se aventurar em busca do nocaute ou da finalização.

Concordo com o escritor Ruy Castro quando ele decreta que a falível condição humana é essencial à obra de arte. A impecabilidade robótica de Jones impede de nos conectarmos emocionalmente a ele. Suas idiossincrasias mais visíveis são a arrogância e a agressividade pouco ética em alguns golpes. Longe de humanizá-lo, essas características só o distanciam mais dos fãs. Ao vê-lo no octógono, me vem à lembrança Ivan Drago, o caricato inimigo russo de Rocky no quarto filme da série.

Anderson Silva também ostenta uma certa arrogância, mas nossa idolatria por ele decorre da improvisação, da malemolência, de não sabermos o que esperar cada vez que ele entra na arena. Essa genialidade perigosa é que cria as lendas.

Muhammad Ali, Ayrton Senna, Michael Jordan e Pelé não são eternos apenas por causa dos seus recordes (muitos deles já quebrados por novos atletas). São mitos porque ganhavam e perdiam fazendo o espetacular.

Falta a Jon Jones aquilo que nenhum número ou estatística consegue exprimir.

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