Rafa Mendes: “Vencer um, dois ou dez Mundiais nunca foi minha definição de sucesso” November 28 2015

Rafa contra Cobrinha, na final dos penas. Foto: Ivan Trindade/GRACIEMAG

Rafa contra Rubens Cobrinha em mais uma final no Jiu-Jitsu: rivalidade antológica. Foto: Ivan Trindade/GRACIEMAG

Em fevereiro de 2007, um magricela de 17 anos vindo de Rio Claro, São Paulo, atraiu os olhares de todos na seletiva do ADCC. Ainda faixa-roxa, Rafael Mendes foi inscrito pelo seu professor Ramon Lemos na categoria até 66kg do torneio de luta agarrada, no clube do Botafogo, no Rio de Janeiro, entre craques renomados da elite do esporte. O peso-pluma com cara de menino e cabelos espetados não temeu ser jogado aos leões. E se tornou um deles.

Um detalhe: ele jamais havia competido sem kimono antes. Acabou vice-campeão, perdendo apenas para Bruno Frazatto, e a partir daí não parou de ser notado em grandes campeonatos. Pentacampeão mundial na faixa-preta com apenas 26 anos, Rafa foi entrevistado recentemente por nossa equipe para a edição #222 de GRACIEMAG. Reproduzimos a seguir os melhores momentos da troca de ideias. Se curtir e quiser ler mais artigos como este, é fácil assinar a revista de Jiu-Jitsu mais tradicional do Brasil e recebê-la em casa. Basta clicar aqui.

GRACIEMAG: Se você pudesse resumir toda sua trajetória do início até o pentacampeonato mundial, o que diria?

RAFAEL MENDES: O homem está sempre na busca pelo sucesso, sempre esteve e sempre estará. E nesta busca muitos se perdem. Hoje eu paro para pensar e olho para trás e descubro que minha fórmula do sucesso sempre esteve comigo, desde criança. Mesmo sem reconhecer com total clareza os princípios em que eu estava baseando minha vida, eu sempre apliquei, sempre vivi e sempre protegi estes conceitos: foco, perseverança, fé, autoconfiança. Princípios que construíram o meu caráter, que foram implementados em mim pela minha família e por pessoas que conheci ao longo do caminho, e em situações que vivenciei em minha infância e adolescência, fundamentais para o meu amadurecimento e responsáveis por tudo que conquistei e ainda vou conquistar.

Você em 2006 era faixa-azul, e em 2009 já era um faixa-preta respeitado. Por conta dessa ascensão meteórica, você alguma vez percebeu alguma pequena lacuna técnica ou conceitual no seu jogo?

A parte técnica com certeza é importante, mas o grande responsável pela ascensão meteórica é a parte mental. Quando você aprender a controlar sua mente, suas emoções, e a dominar o seu medo, isso fará com que você se sinta confortável em uma situação desconfortável como a competição, e vai permitir que você use todo seu potencial. E aí sua mente estará em paz, calma, para tomar a decisão correta no momento perfeito. Isso fará você atingir o que eu chamo de “momento mágico”, onde a preparação se encontra com a oportunidade; e é através desta habilidade, neste momento, que os campeões são criados.

Muitos mestres da antiga resumiam que o Jiu-Jitsu era a arte de começar por baixo e ficar por cima. Você e sua geração subverteram isso, com o berimbolo que pulava esta etapa, indo da guarda para as costas. Você vê o seu Jiu-Jitsu assim?

Sempre olho para o Jiu-Jitsu e para tudo na minha vida com um objetivo: a evolução. Isso é o que me motiva em tudo que faço, esta mentalidade de querer evoluir, aprimorar, melhorar, inovar. Realmente acredito que 99% do mundo gostam de inovação – todo mundo gosta quando a Apple anuncia o novo iPhone, quando sua marca favorita de roupa lança uma nova coleção, ou quando seu filho aprende uma coisa nova e mostra a você. Isso é inovação, evolução, e é isso que faz o dia a dia mais emocionante, mais desafiador. O que procuro fazer todos os dias pode ser resumido nesta frase atribuída a Walt Disney: “Aqui nós não olhamos para trás por muito tempo, Nós continuamos seguindo em frente, abrindo novas portas e fazendo coisas novas, Porque somos curiosos… E a curiosidade continua nos conduzindo por novos caminhos.”

A primeira vez que vimos você lutar foi sem o kimono, naquela seletiva do ADCC 2007. O que você sentiu ali entre tantos craques?

Eu me lembro que eu não ia lutar esta seletiva do ADCC, pois ainda era faixa-roxa, e o evento era aberto para qualquer faixa. Mas sempre tive algo dentro de mim, um sentido, uma voz, que sempre fala mais alto quando aparece algum desafio, quando não tenho a certeza do que vai acontecer, mas esta voz faz com que eu me arrisque, desafie minhas certezas, faz com que eu não tenha medo e que eu ultrapasse meus limites, pois na verdade não existem limites. Foi isso que aconteceu, senti dentro de mim que eu deveria ser corajoso, pois somente quem tem coragem será capaz de sentir a felicidade ao conquistar seus sonhos. Aquele campeonato me fez aprender mais sobre mim mesmo, e revelou para o mundo o potencial que eu tinha. A partir daquele momento a mídia me conheceu e se surpreendeu, e com certeza foi muito importante para o início da minha carreira e para a construção do meu nome como atleta. Aquele campeonato, mesmo com a derrota na final, trouxe benefícios incalculáveis para minha jornada.

Você procura tirar lições tanto das derrotas como das vitórias de modo similar?

Na minha carreira como atleta eu sempre fiz o possível e o impossível para chegar ao mais alto nível técnico, físico e mental. Não existe nada mais doloroso do que uma derrota, não somente no Jiu-Jitsu mas em qualquer área da sua vida. Uma derrota nunca é fácil de entender e é ainda mais complicado para se absorver; e devemos procurar absorver qualquer experiência, seja ela boa ou ruim. Quando sofro uma derrota, como todo ser humano, no primeiro momento eu questiono, questiono o por quê daquilo estar acontecendo – eu não acho justo, a emoção tenta me controlar, mas é neste momento, quando eu paro por um segundo, respiro fundo e me lembro que tenho de dar graças por tudo que Deus coloca e também por tudo que Deus tira da minha vida, é então que percebo que não é justo eu agradecer quando recebo o que quero e me rebelar quando as coisas não vão da maneira que espero. Quando esta sabedoria se tornou parte de mim, da minha vida, esta maturidade de como lidar com as emoções e situações, tudo passou a ter mais sentido, e em consequência tudo se tornou mais produtivo.

É uma boa filosofia. Em relação ao estudo das lutas, você costumava assistir a lutas antigas de velhos ídolos?

Sempre acompanhei muito a categoria pena, estudando tudo e todos. Sempre tive como objetivo lutar nesta categoria – mesmo quando eu era juvenil peso-galo, meu objetivo já era o de um dia me tornar faixa-preta e conquistar o topo, pois em minha opinião o peso-pena tem o Jiu-Jitsu mais refinado e artístico, e eu sabia que se eu colocasse minha atenção nessa categoria, meu Jiu-Jitsu evoluiria rapidamente e meu caminho até a faixa-preta seria mais dominante.

O seu treino voltado para competição e o seu treino do dia a dia são bem diferentes?

Sim, a maneira como treinamos na nossa academia é muito estudada, muito planejada. Não acredito que treinar no seu máximo o ano todo, todos os dias, seja a maneira mais inteligente. A periodização é muito importante no Jiu-Jitsu. Entender como o seu treinamento faz você chegar no dia da competição em sua melhor forma é uma ciência, e somente um treinamento inteligente pode conseguir atingir este objetivo.

Há atletas que são campeões nas faixas de base, mas não repetem o feito na faixa-preta. Por quê?

Para ser consistente e vencer no mais alto nível no Jiu-Jitsu, é preciso dominar três aspectos: o técnico, o físico e o mental. E a grande maioria das pessoas não encontra esta sintonia, o que resulta em uma decadência nos resultados.

Muita gente treina para ter mais saúde, viver melhor e depois ensinar. Como você sugere que a pessoa possa viver do Jiu-Jitsu sem ser um campeão mundial?

Nosso objetivo com a nossa academia, a Art of Jiu-Jitsu, é usar nossa arte para, de alguma maneira, fazer um impacto positivo na vida dos alunos e da comunidade, influenciando crianças e adultos e pessoas com diferentes objetivos, seja perder peso, fazer exercício, aprender uma arte marcial, relacionar-se com outras pessoas ou vencer campeonatos. Seja qual for o objetivo do aluno, é responsabilidade do professor perceber e reconhecer isso. Acredito que não é necessário ser um campeão para poder abrir uma academia e viver do Jiu-Jitsu, vejo muitos campeões com academias que não são bem sucedidas pois faltam muitas das qualidades necessárias. Certamente se você é famoso no mundo do Jiu-Jitsu isso abre portas para sua academia e seus alunos, mas é sim possível para qualquer um viver do Jiu-Jitsu – basta disciplina, profissionalismo e organização.

O fato de você ter aparecido no cenário de Jiu-Jitsu já com um forte rival como o Cobrinha o ajudou em algum aspecto?

Com certeza, quando você tem um adversário de alto nível, não somente no Jiu-Jitsu mas em qualquer área de sua vida, este desafio faz com que você se dedique ainda mais, faz com que você se exija mais, quebre barreiras e tenha mais foco. Um grande adversário transforma você em uma versão melhor de si mesmo, ou seja, em uma pessoa melhor.

Ter um irmão/parceiro/rival cascudo sempre ao lado é uma fórmula para estar sempre evoluindo no Jiu-Jitsu? Essa troca de ideias entre vocês desde a infância é uma de suas receitas de sucesso?

Essa sintonia que existe entre irmãos é uma coisa especial, muito poderosa. O fato de sempre ter meu irmão ao meu lado foi e é inexplicavelmente benéfico em minha vida. Em um irmão eu sempre encontrei tudo, parceria, amizade, competição, rivalidade, e todas essas experiências foram e são muito construtivas no meu desenvolvimento como atleta e como pessoa.

Muitos leitores e observadores consideram você o lutador mais técnico peso por peso. Não gostaria de entrar num absoluto ou numa luta casada insana para tirar isso a limpo um dia?

Fico muito feliz e orgulhoso quando o mundo do Jiu-Jitsu me coloca nesta posição, não existe satisfação profissional melhor do que ser considerado o melhor do mundo. Eu dediquei minha vida ao Jiu-Jitsu, sacrifiquei minha infância e adolescência correndo atrás dos meus sonhos por meio desta arte marcial, e hoje me sinto realizado em ver que tudo isso valeu a pena, nada foi em vão! Sou extremamente feliz pois consegui alcançar meu objetivo, de fazer uso do Jiu-Jitsu e do meu talento para mudar vidas, e hoje consegui proporcionar para mim e minha família a qualidade de vida que sempre desejei. Isso sim é sucesso na minha visão. Vencer um, dois ou dez campeonatos mundiais nunca foi minha definição de sucesso, mas sim usar tudo isso, suas conquistas, seu talento, suas experiências, todo seu potencial para mudar primeiramente sua vida, e posteriormente usar sua vida para causar um impacto positivo na vida de outras pessoa, este é o verdadeiro sucesso.

Sobre o absoluto, não vejo a necessidade de provar mais nada em termos de competição. Acredito que mesmo se eu vencer o absoluto no Mundial da IBJJF isso não muda nada, acho mais importante a influência que estamos tendo não só nas competições, no estilo de Jiu-Jitsu que as pessoas estão treinando, mas também como estamos expondo ao mundo a maneira como o Jiu-Jitsu deve ser apresentado para um indivíduo, para uma criança ou uma família. Jiu-Jitsu é educação, e esta é a forma como a AOJ introduz o Jiu-Jitsu, sendo assim acredito que é este pacote todo, todas estas características, que nos colocam nessa posição de melhor do mundo segundo a comunidade do Jiu-Jitsu.